Escritora

(escrito originalmente no Substack)


Eu escrevo bastante. O texto é minha profissão, de várias maneiras.

Mas aqui estou falando de outra coisa. Quero falar sobre ser escritora - e eu não sou.

Eu adiantei minha alfabetização, enchendo o saco da minha mãe, que preferia (acertadamente) que as coisas acontecessem no tempo certo. Tive minha professora da pré-escola (Maria s2) do meu lado: fez o teste de nivelamento, pra ver se eu estava pronta pra primeira série do primeiro grau, e eu passei com louvor. Bah, fiquei muito faceira.

Como eu disse, minha mãe não deixou que eu começasse o primeiro grau com 4 anos, numa turma de crianças mais velhas. Ela tinha toda razão. E eu não tive uma grande decepção com a atitude dela. Primeiro, porque ela me explicou e eu entendi; segundo, porque eu fiz meus corre pra ir aprendendo a ler. Tive tias e primas que colaboraram muito, ajudas picadinhas, que eu fui juntando. Quando cheguei cronologicamente na primeira série, já sabia ler.

Não, não foi um tédio “ai-que-bosta-já-sei-tudo”. Eu não sabia tudo. A escola organizou os conhecimentos picadinhos.

Hoje eu não sei dizer quem nasceu primeiro, a leitora ou a escritora. Tenho a impressão de que nasceram juntas, uma por causa da outra.

Sabe o arquétipo da pessoa na frente de uma máquina de escrever, com café do lado e cigarro no canto da boca? Era o que eu já queria ser, desde sempre. Era como eu me via, e adorava me ver.

Meu primeiro livro-paixão foi Pé-de-Pilão, do Mário Quintana. Eu ainda não lia, mas botava todos por perto a ler pra mim e mostrar as ilustrações. Era uma história-poema, era rimado e, justo por isso, era fácil de decorar. Eu decorei até a metade. Ficava com o livro aberto na minha frente, fingindo ler e virando as páginas na hora certinha.

Eu me apaixonei pelo Mário Quintana. Criei uma figura dele na minha cabeça, jovem, lindo, brilhante, também apaixonado por mim. Íamos ser um casal de escritores, Simone e Jean-Paul - que eu ainda estava longe de saber quem eram.

Bueno, as decepções amorosas começam cedo. Me mostraram uma foto dele, e eu não acreditei que aquele velhinho era o Mário. Mário não era nome de velho, os Mários tinham no máximo 20 anos.

Tratei de engavetar o meu namoro e terminar de ler a segunda metade do livro. Eu ainda amava o Mário, mas pessoas com mais de 20 anos não eram namoráveis. Eu tinha 5 ou 6. E eu ia ser escritora sem namorado mesmo.

Tenho uma penquinha de poemas, escritos há muitos anos (parei). Mais do que os 9 anos recomendados por Ovídio, em sua Arte Poética. Hoje são muito poucos que passam pelo meu crivo.

Outra penquinha de crônicas e um quase nada de contos. E uma tentativa de romance meio pequeno, acho que é novela. Só teve um leitor: meu amigo AaD (amigo a distância - não tem crase, se liguem - pronto, falou a professora) uruguaio, escritor excelente, o Alfredo. Agora não lembro o sobrenome dele, é meu amigo Alfredo e ponto. Ele elogiou muito na época, fiquei bem faceira (faceirice de novo?). Só que andei relendo… e tive aquela vergonha alheia, que não é alheia, mas a gente queria que fosse mesmo vergonha por outra pessoa. Não é síndrome de impostora, é diferente. Não me acho uma fraude, eu sou escritora desde a barriga da minha mãe. Sou uma escritora que escreve muito, não escreve nada, tem um teclado QWERT pela frente, café ao lado e um cigarro no canto da boca.

É o que basta.

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, e nada que se pareça com isto devia ser o sentida da vida...

(Álvaro, sempre melhor que Fernando)