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Sonhos

(publicado originalmente no Substack)

Os sonhos apresentam-se em três trabalhos distintos: o primeiro, no momento de sonhar; o segundo, no momento de lembrar; e o terceiro, parcialmente sobreposto ao anterior, no momento de relatar.

O trabalho de sonhar nos parece alheio a nossa intervenção. Mas, apesar de usualmente nos sentirmos numa realidade descolada de nós, todo aquele cenário, figuração, elenco, ou sonho sem nada disso, pfff bien, tudo se passa na nossa cabeça, sendo impossível renegarmos sua autoria.

Mesmo o Eu psicanalítico tentando lavar as mãos e passar a bola para o Inconsciente, trabalhamos no sonho com todas as nossas instâncias psíquicas. Não é apenas no sonho lúcido que o Eu participa, talvez tenha simplesmente mais poder de decisão no roteiro.

Podemos despertar lembrando nitidamente do sonho, ou lembrando de partes dele. Ou ainda não lembrando de nada, pular da cama rápido, pra tocar a vida. Às vezes, um flash do sonho tenta se mostrar durante o dia, a gente puxa pela memória, quase sempre sem êxito.

O trabalho de sonhar

  • instâncias psíquicas? - todas aqui, ok

  • memórias? - todas aqui, ok (tá ficando meio apertado, poderia alocar mais espaço na nuvem pra nós?)

  • cinco sentidos? - presentes e funcionando, ok

  • outros sentidos? - todos aqui, imagináveis ou não, só não tá legal os cinco ficarem olhando assim de revés pra gente

  • cinco, sejam educados, por favor! - táaaaaaa

  • emoções? - aqui, prontas pra turbilhonar

  • traumas? (…) traumas?? (…) não adianta se esconderem, caso convocados, terão de se apresentar.

  • idioma? - tô aqui o tempo todo.

  • se alguém ficou de fora, é só chegar, vai começar o sonho.

É uma trabalheira. Eu e Supereu aproveitam pra tirar um cochilo, só aparecem se algum trauma demandar suas presenças. Senão, o Inconsciente que se vire pra orquestrar esse povaréu. O que ele, obviamente não faz - deixar o barco correr é a sua especialidade.

O trabalho de lembrar

Lembrar do sonho é um trabalho desafiador. Mesmo que a memória dele ainda esteja viva, temos agora de fazer caber nossa produção onírica na linguagem. Por mais amplo que seja nosso vocabulário, eu aposto que este é um trabalho difícil. A língua foi feita por e para a vida desperta. Vamos enfrentar dificuldades em transpor o que é de sonho para o que é de razão.

Àquilo do sonho que não logremos pôr em palavras restará um lento esquecimento. Ou total incapacidade de comunicá-lo. Antes dissemos que este trabalho se sobrepõe ao seguinte, o trabalho de relatar, porque nosso primeiro interlocutor somos nós mesmos. Lembrar com palavras é mais fácil de reter e de compreender.

O trabalho de relatar

É um trabalho derivado do anterior, agora com um interlocutor outra-pessoa mesmo. Nossas vítimas (ninguém tem paciência para escutar o sonho de ninguém) podem estar dentre algum familiar à mesa do café-da-manhã, o motorista de ônibus, de uber, ou aquele colega que também chegou mais cedo ao trabalho, tadinho. Mas que ninguém se culpe, todos seremos um dia o pobre interlocutor do sonho alheio, e o jogo acaba em 0x0.

O fato é que muito do material onírico se perde ao o transformarmos em linguagem. Língua. Idioma. E certamente o idioma vai interferir nesse processo de transformação, de maneira bastante complexa, mas que posso aqui facilitar um pouco e imaginar que determinado elemento do sonho tenha ou não tenha uma palavra que o nomeie no idioma do sonhador.

Mas daí a pessoa sonhante faz análise, psicanálise, da abordagem que for - psicanalistas AMAM sonhos. E a gente quer agradar o nosso ou a nossa, bebês que somos, querendo arrancar palminhas do papai ou da mamãe. Aí, minha gente, todos os buracos são mais embaixo. Aliás, o côncavo buraco tem relevância equivalente à do convexo falo, mas isso é conversa pra outro dia. Vai pensando aí. Roberto Carlos pode ajudar.

O caso é que o relato agora, depois de ter passado por tudo aquilo ali em cima, vai ter peso de depoimento, de Mim pra Eu. E também pra Ele/Ela. E depois de tantas vezes já interpretado (sonhar/não sonhar; lembrar/não lembrar; relatar/não relatar são trabalhos de escolha, ênfase e negação), finalmente o sonho vai entrar no palco. Um espetáculo sem palmas nem apupos, do qual saímos com aquele olhar perdido, de quem entendeu tudo e não entendeu nada. Ou vice-versa. A vida não é pra explicar, pra entender, nem pra piorar ou melhorar. A tarefa da vida é deixar a gente com aquela cara silenciosa de PUTA-QUE-PARIU!

Aquisição (?) da linguagem

 1. Construção do Conhecimento
  • Piaget: interação da criança com o ambiente.
  • Vygotsky: trocas comunicativas com adultos.
  • Ambas fazem parte do construtivismo, mas o foco aqui é o cognitivismo.

2. Linguagem e Cognição

  • Aquisição da linguagem depende do desenvolvimento do raciocínio.
  • Piaget se concentra na relação linguagem ↔ pensamento.
  • Criação da epistemologia genética: estruturas cognitivas surgem da experiência com o mundo.

3. Maturação

  • A criança precisa estar madura biologicamente e cognitivamente para aprender com o ambiente.
  • Interação social não é suficiente sem maturação.

4. Estágios de Desenvolvimento

Estágio

Idade aproximada

Características principais

Sensório-motor

0–18/24 meses

Antes da linguagem; exploração do ambiente

Pré-operatório

2–7/8 anos

Uso de símbolos e representações

Operatório-concreto

7/8–11/12 anos

Pensamento lógico

Operatório-formal

11/12 anos em diante

Raciocínio abstrato e dedução


5. Função Simbólica e Representacional

  • Necessárias para usar a linguagem.
  • Ligadas a três processos que superam o egocentrismo radical:
    1. Descentralização das ações — percebe seus próprios movimentos.
    2. Coordenação das ações — relaciona meios e fins.
    3. Permanência do objeto — entende que objetos existem mesmo fora do campo de visão.
  • Surgem outras formas de simbolização:
    • Imitação diferida
    • Jogo simbólico
    • Desenho
    • Imagens mentais

6. Fala Egocêntrica vs Fala Socializada

  • Fase inicial: fala egocêntrica — sem considerar o interlocutor.
  • Por volta dos 7 anos: fala socializada — perguntas, respostas e interações reais.

7. Aquisição da Linguagem

  • Resultado da interação entre ambiente e organismo.
  • Contrapõe-se ao Dispositivo de Aquisição da Linguagem (DAL) de Chomsky.
  • Rejeita o behaviorismo de Skinner — a criança não aprende passivamente.

8. Críticas ao Modelo Piagetiano

  • Não considera suficientemente o papel do “outro”.
  • Estágios vistos como lineares e iguais para todas as crianças.
  • Pesquisas m mostram variações individuais.
9. Interacionismo (Vygotsky)
  • Surge para lidar com críticas a Piaget.
  • Dá destaque às trocas sociais.
  • Vê a linguagem como ferramenta central no desenvolvimento cognitivo.